Professor James Onnig

Falo,leio e escrevo sobre a geografia e o mundo

Assuã no Egito: exemplo do que não deve ser feito

Estava estudando o último relatório do Banco Mundial sobre águas lançado em 2010. Lembrei imediatamente da aula que ministro sobre hidrografia africana.

  A água continua sendo um dos temas mais importantes, mesmo que muitos analistas acreditem que conflitos diretos por esse recurso estejam ainda distantes do cenário geopolítico. Pelo que leio e observo,  o nível de tensão deve crescer em função da escassez dessa verdadeira riqueza.

  O estudo aponta tensões em 24 bacias que juntas abastecem 350 milhões de pessoas.

   A maior parte desses rios estão na África subsaariana. Tensões já existem entre Argélia e Marrocos na disputa pelo rio Tafna; Irã e Paquistão já estão em estado de alerta pelo rio Dasht; Equador e Peru, que já chegaram a uma guerra por uma cordilheira, tem que estabelecer negociações pelo rio Chira e por aí vai.  

   O relatório aponta que por volta de 2050 cerca de 37 bacias de menor dimensão que abastecem cerca de 200 milhões de pessoas hoje, já vão sofrer problemas com uma diminuição de sua vazão de água.  Nesse grupo estão incluídas as bacias de Kura-Araks(Turquia- Armênia- Irã); Neman(Europa Oriental); Asi-Orontes (Líbano-Síria- Turquia); Catatumbo(Colômbia- Venezuela).

  Uma das grandes tensões está concentrada na Bacia do Rio Nilo, já que problemas nela teriam repercussões não somente regionais como também  globais.

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Países diretamente ligados a Bacia do Rio Nilo 

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 Com nascentes na região dos lagos africanos e na Etiópia o Rio Nilo atravessa de sul a norte grande parte do continente africano. 

 Um exemplo desses problemas foi a construção da Represa de Assuã no Egito. Planejada pelo Presidente Nasser na década de 1950 e financiada pela antiga URSS, ela visava modernizar a agricultura e possibilitar a industrialização do país. A meta era irrigar milhões de quilômetros quadrados de deserto e obter energia barata para industrialização. A represa ficou pronta em 1970. e foi batizada de Lago Nasser.

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 Ao sul do Egito a represa de Assuã deu origem ao grande Lago Nasser

   Mas o que realmente aconteceu foi a destruição total de importantes ecossistemas inclusive do Mar Mediterrâneo onde o Nilo desemboca.

  O acumulo de água mudou a composição do silte(areia), da argila, do limo(material orgânico composto por algas) que se depositavam nas margens do rio durante as cheias que chegavam a inundar 20 km a partir do leito.

   Os problemas ficaram ainda mais evidentes quando os técnicos notaram que a represa não enchia totalmente nem nas cheias. Descobriu-se que parte da água infiltra no subsolo dificultando o enchimento completo do lago.

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  Os problemas ambientais criados por essa imensa barragem alertaram e ainda alertam os projetistas sobre os efeitos negativos desse tipo de obra.  

 Estudos provaram que o limo, responsável pela fertilização das margens, agora fica todo depositado no fundo do lago depois da construção da barragem. Foi esse mesmo limo que levou o pensador grego Heródoto a pronunciar a frase “O EGITO É UMA DADIVA DO NILO” espantando com a fertilidade das margens em plena região desértica.

 Para piorar,  isso aumentou a necessidade de fertilizantes industriais, que mesmo com toda a sua capacidade química não se igualam ao limo natural que fertilizou o Egito por milhares de anos.

 Existem muitas variáveis que precisam ser estudadas na construção de hidrelétricas. Fica o alerta. Poderíamos falar até de sítios arqueológicos inundados mas isso fica para uma outra oportunidade.

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Publicado em outubro 22, 2012 por .
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